quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Urra, ou um dia na vida de um pirata

Urra - Muros Diversos - Contos - Literatura

"Urra!", gemeu o homem com um gancho na mão e um pedaço de pau no lugar do pé esquerdo. Sua carranca não negava: havia realmente passado por bons bocados enquanto estivera em alto-mar. Seus cabelos desgranhados por baixo daquele chapéu medonho eram menos assustadores do que seus dentes apodrecidos pelo tempo (e pelo rum) que consumira seu alvor.
Subira com dificuldade pelos parcos degraus que separavam a entrada do bar do salão principal. Não era fácil andar com aquela perna. Ou com o que restava dela. 
Mas ali estava agora, em frente ao balcão, a alguns centímetros dele. Afinal, a barriga não o deixava se aproximar mais. 

terça-feira, 9 de julho de 2013

Meu copo meio cheio

Meu copo meio cheio - Muros DiVersos - Literatura


Mal entrei no quarto
E me deparei com aquele corpo
Todo torneado e estatelado na cama.
Que mulher dengosa!
Nem acreditava que ela estava ali ainda.
Tinha me levantado pra mijar à noite,
E me dei de cara com ela ali na volta.
Não me lembrava de como
Ela tinha ido parar ali.

Mas não importava.

Minhas cobertas,
Meio sobre ela,
Deixavam suas coxas à mostra,
Iluminadas pelas luz fraca que vinha do banheiro.
Suas roupas estavam sobre o chão,
Junto com meus trapos, no canto.
Havia alguns cigarros no cinzeiro,
Um copo meio cheio de uísque barato,
E uma calcinha pendurada sobre a cômoda.
Havia sido uma noite e tanto.

É por isso que não me lembro de nada.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

O mundo em minhas mãos

O mundo em minhas mãos - Muros DiVersos - Literatura


Me cansei dos moldes da sociedade, dos laços que me prendem a esse mundo vão. Cansei das cores das ruas e da falta de cor delas. Os olhos famintos da multidão que me devora e nem me percebe. Sou apenas uma mosca que pousou na sopa da sociedade e foi engolida, sem nem fazê-la engasgar. Sou fruto do pecado original, sou tenso e sou fugidio. Quero a luz e a sombra ao mesmo tempo, quero mais, quero tudo. Os carros caros e as mansões devem ser meus. As pessoas que me pisaram devem ser postas em arreios e me servir de cavalinhos. Usarei calças de jóquei, correrei as corridas que ninguém correu. Não me cuspa ainda, sei que tenho futuro.

Serei o artista e o retrato, serei a alma e o corpo, o livro e o esboço, criação e criador. Serei eu mesmo e todos os outros, a junção do mundo inteiro, a esperança do universo.


E quando tudo for para o espaço, eu abrirei meus olhos e acordarei. Serei eu mesmo o mundo, o escuso, o tudo. Mas ninguém me notará. Mendigarei pelas esquinas às senhoras e às meninas por um mísero centavo, e novamente serei ignorado. Serei obrigado então a me deitar novamente, descansar eternamente e negar ao mundo sua pífia salvação.

À beira da lareira

À beira da lareira - Muros DiVersos - Literatura

E ela ficava assim, tamborilando as notas do caos sobre o braço de sua poltrona marrom. Os olhos estavam fixados nas labaredas que crepitavam na lareira e o calor que vinha dali lambia-lhe o rosto, num gesto quase carinhoso.

Sua mão esquerda ainda girava levemente o copo quase vazio, que ainda há pouco continha uma bela mistura destilada de maltes; mistura essa que lhe entrara pela goela abaixo e a rasgara, e queimara, e aquecera, e saciara. Tudo ao mesmo tempo. Bebera para esquecer e, por não se lembrar do que queria esquecer, sabia que havia obtido sucesso em seu intuito.

O grande problema é que agora já não havia mais nada entrando pela fresta que seus lábios finos formavam, o que lhe dava tempo para pensar. E pensar, naquele momento, era a última coisa que queria fazer.

Sua cabeça estava lotada. As entranhas cerebrais, de onde saíam tantas ideias boas, estavam agora entupidas de grossas camadas de gordura e dejetos pensamentícios. Alimentava-se de pensamentos, mas a estafa a impedia de consumir qualquer coisa a mais. Sem consumo, sem produção. Assim é a lei da vida, em todos os meios, em todas as ocasiões.

Pra quê haveria de pensar, se ninguém estaria ali para compartilhar com ela? Preferia ficar com seu uísque e se esquecer do esquecido. Esquecer que um dia já fora alguém de importância. Não para o mundo, mas para ela mesma. Importava-se consigo, e mais ninguém. Outra lei dos homens, nessa vida mal formulada e estranha de se viver.

Não havia tempo de correr à mesa para apanhar a garrafa.
Já não havia garrafa, ou lareira, copo, braço, nem nada.
Tudo era um só breu, onde nada fazia sentido.
Sentia sua respiração etílica, somente isso.
Ia sufocando aos poucos, podia sentir.
Agonizava lentamente, sozinha.
A respiração ficava fraca.
Parava de funcionar.
Cada vez menos.
Aos poucos.
Sozinha.

Fim. 

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Nonsense

Nonsense - Muros DiVersos - Literatura


- Alô?
- Oi.
- Oi, quero falar com o Carlos.
- Ele mesmo.
- Oi, ele mesmo. Sabe do Carlos?
- Então, ele saiu.
- Saiu?
- Sim, foi pra lá de Bagdá. Talvez demore a voltar. Sabe como são os metrôs, não é mesmo?
- Sei, sim. Uma vez, um sonho meu caiu no vão entre o trem e a plataforma. Nunca mais o vi na vida.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Meus discos

Meus discos - Poemas - Muros DiVersos



Eu ouvia meus discos em casa.
Ela foi chutando as coisas,
Nada demais. Eles tocavam, eu os ouvia,
E bebia minha cerveja em paz.
Até que ela chegou.
Escancarou a porta,
Não parou.
Como se ainda morasse lá,
Entrou chutando a estante,
Derrubando meu rádio.
Vinha com suas longas pernas,
Expostas sob o vestido quase transparente.
Ela tinha engordado,
Mas ainda estava linda.
Mais linda do que nunca.
Tinha ódio no rosto,
Um ódio tenso, nervoso.
Eu não sabia onde aquilo pararia.
Até que chegou em mim.
E me bateu, com todas suas forças.
Me esmurrou mesmo, sem dó,
Balançando suas bijuterias baratas,
Espalhando seu cheiro de perfume,
Enfiando-me as unhas,
Que já não eram mais postiças,
E que deixavam sulcos na minha pele.
Ela foi vindo, me batendo.
O ódio se arrefeceu,
O seu corpo se cansou,
E se aconchegou no meu.

Aquela seria uma ótima noite.