"Urra!", gemeu o homem com um gancho na mão e um pedaço de pau no lugar do pé esquerdo. Sua carranca não negava: havia realmente passado por bons bocados enquanto estivera em alto-mar. Seus cabelos desgranhados por baixo daquele chapéu medonho eram menos assustadores do que seus dentes apodrecidos pelo tempo (e pelo rum) que consumira seu alvor.
Subira com dificuldade pelos parcos degraus que separavam a entrada do bar do salão principal. Não era fácil andar com aquela perna. Ou com o que restava dela.
Mas ali estava agora, em frente ao balcão, a alguns centímetros dele. Afinal, a barriga não o deixava se aproximar mais.
"Rum!", urrou novamente nosso querido amigo.
Pois não, pois não. Vamos beber de novo. Ah, aquilo lhe soava familiar. O som da bebida caindo do gargalo e indo em direção ao copo. Aquilo sim era estar em casa. Após meses de reclusão naquele maldito navio carcomido pelo mar e seus tubarões, agora estava em terra firme, e não precisava se enganchar em cordas para ficar em pé (sem trocadilhos. Sério).
Subiu o copo aos lábios cinzentos, que eram envoltos por uma espessa barba marrom-escura. O cheiro do rum entrou em seus pulmões, pulverizando qualquer resquício que poderia haver de maresia dentro dele. Queria mesmo se embebedar pra esquecer o que acontecera na última viagem. Lançou mais um "Urra!" e virou o copo de uma vez só goela abaixo.
Sentou-se na banqueta de madeira surrada que havia junto ao balcão, cerrou os olhos e colocou sua grande mão sobre eles, abaixando sua cabeça e tronco, formando uma corcunda que não combinava com sua postura altiva.
Pela primeira vez na vida, sentiu vontade de chorar.
Tudo aquilo era muito para ele, estava melancólico e triste. A bebida não lhe fazia esse efeito, não. Muito pelo contrário. O rum era o alimento preferido de seu corpo. Sim, de seu corpo, pois não acreditava mais em coisas como alma. Ou talvez acreditasse, mas achava que se houvesse algo parecido, ele não teria uma.
Sua mão calejada serviu como um berço para suas pálpebras cerradas e úmidas enquanto seu braço direito, com o gancho, apoiava-se sobre o balcão. Estava desolado e nem sabia o porquê. Nunca fora de refletir sobre sua existência, apenas vivia. Agora, como não tinha prática, não conseguiu entender o que lhe acontecia. E começou a chorar copiosamente. Chorou mares de lágrimas salgadas como o Mar Morto. Chorou até que suas dores passassem. Chorou por uma eternidade.
Enfim, levantou-se, agora carrancudo, empertigou-se, deu as costas ao balconista atônito, e jogou-se uma moeda de prata por sobre o ombro, gritando um último "Urra!". Nunca mais foi visto naquele porto.
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