E ela ficava assim, tamborilando
as notas do caos sobre o braço de sua poltrona marrom. Os olhos estavam fixados
nas labaredas que crepitavam na lareira e o calor que vinha dali lambia-lhe o
rosto, num gesto quase carinhoso.
Sua mão esquerda ainda girava
levemente o copo quase vazio, que ainda há pouco continha uma bela mistura
destilada de maltes; mistura essa que lhe entrara pela goela abaixo e a rasgara,
e queimara, e aquecera, e saciara. Tudo ao mesmo tempo. Bebera para esquecer e,
por não se lembrar do que queria esquecer, sabia que havia obtido sucesso em
seu intuito.
O grande problema é que agora já
não havia mais nada entrando pela fresta que seus lábios finos formavam, o que
lhe dava tempo para pensar. E pensar, naquele momento, era a última coisa que
queria fazer.
Sua cabeça estava lotada. As
entranhas cerebrais, de onde saíam tantas ideias boas, estavam agora entupidas
de grossas camadas de gordura e dejetos pensamentícios. Alimentava-se de
pensamentos, mas a estafa a impedia de consumir qualquer coisa a mais. Sem
consumo, sem produção. Assim é a lei da vida, em todos os meios, em todas as
ocasiões.
Pra quê haveria de pensar, se
ninguém estaria ali para compartilhar com ela? Preferia ficar com seu uísque e se
esquecer do esquecido. Esquecer que um dia já fora alguém de importância. Não
para o mundo, mas para ela mesma. Importava-se consigo, e mais ninguém. Outra
lei dos homens, nessa vida mal formulada e estranha de se viver.
Não havia tempo de correr à mesa
para apanhar a garrafa.
Já não havia garrafa, ou lareira, copo, braço, nem nada.
Tudo era um só breu, onde nada
fazia sentido.
Sentia sua respiração etílica, somente
isso.
Ia sufocando aos poucos, podia
sentir.
Agonizava lentamente, sozinha.
A respiração ficava fraca.
Parava de funcionar.
Cada vez menos.
Aos poucos.
Sozinha.
Fim.

Que texto incrível!
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