segunda-feira, 8 de julho de 2013

À beira da lareira

À beira da lareira - Muros DiVersos - Literatura

E ela ficava assim, tamborilando as notas do caos sobre o braço de sua poltrona marrom. Os olhos estavam fixados nas labaredas que crepitavam na lareira e o calor que vinha dali lambia-lhe o rosto, num gesto quase carinhoso.

Sua mão esquerda ainda girava levemente o copo quase vazio, que ainda há pouco continha uma bela mistura destilada de maltes; mistura essa que lhe entrara pela goela abaixo e a rasgara, e queimara, e aquecera, e saciara. Tudo ao mesmo tempo. Bebera para esquecer e, por não se lembrar do que queria esquecer, sabia que havia obtido sucesso em seu intuito.

O grande problema é que agora já não havia mais nada entrando pela fresta que seus lábios finos formavam, o que lhe dava tempo para pensar. E pensar, naquele momento, era a última coisa que queria fazer.

Sua cabeça estava lotada. As entranhas cerebrais, de onde saíam tantas ideias boas, estavam agora entupidas de grossas camadas de gordura e dejetos pensamentícios. Alimentava-se de pensamentos, mas a estafa a impedia de consumir qualquer coisa a mais. Sem consumo, sem produção. Assim é a lei da vida, em todos os meios, em todas as ocasiões.

Pra quê haveria de pensar, se ninguém estaria ali para compartilhar com ela? Preferia ficar com seu uísque e se esquecer do esquecido. Esquecer que um dia já fora alguém de importância. Não para o mundo, mas para ela mesma. Importava-se consigo, e mais ninguém. Outra lei dos homens, nessa vida mal formulada e estranha de se viver.

Não havia tempo de correr à mesa para apanhar a garrafa.
Já não havia garrafa, ou lareira, copo, braço, nem nada.
Tudo era um só breu, onde nada fazia sentido.
Sentia sua respiração etílica, somente isso.
Ia sufocando aos poucos, podia sentir.
Agonizava lentamente, sozinha.
A respiração ficava fraca.
Parava de funcionar.
Cada vez menos.
Aos poucos.
Sozinha.

Fim. 

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